A falta que faz o Gerenciamento de Riscos

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Data: 30/01/2019

Ainda sob o impacto emocional da tragédia de Brumadinho, em que a lama de uma barragem de mineradora de ferro arrastou para a morte não se sabe quantas pessoas, incluindo a médica do trabalho, o fonoaudiólogo, a técnica de enfermagem e outros tantos do corpo técnico da mina, incluindo o gerente e engenheiros que estavam em reunião, escrevo este texto para reforçar um ponto fundamental da prevenção de acidentes.

Antes de mais nada, é importante destacar dois pontos: (a) acidentes não são eventos inesperados; eles são previsíveis, na quase totalidade das vezes, só não são programados, isto é, não sabemos o dia em que ocorrerão; (b) fatalidades não existem; esse termo costuma ser o ponto de transferência de responsabilidade quando as ações de prevenção falham.

Então, o que seriam as ações de prevenção eficazes?

Debruçando sobre o tema, com a experiência de consultoria em dezenas de empresas no Brasil, inclusive mineração, em 2006 enunciei um modelo que continua sendo muito atual, no qual fica evidente que prevenir acidentes não é fácil, que não pode ser centrado em apenas uma medida; esse modelo destaca que, para a prevenção eficaz, são necessários 10 pilares, que mnemonicamente podem ser guardados pelas letras primeiras do nosso alfabeto: A, A, B, C, D, E, F, G, H e I.

O primeiro pilar é ADMINISTRAÇÃO. Não há mágica possível; somente quando a administração de um setor produtivo está adequada é que se consegue boa prevenção; o contrário também é previsível: áreas mal administradas têm alto índice de acidentes do trabalho.

O segundo pilar é ANÁLISE DE RISCO. Aqui, existem muitas técnicas disponíveis, mas cabe destacar que analisar riscos é a junção de diferentes técnicas com crença nessa medida, e que é necessário que os gestores tenham essa crença como valor.

O terceiro pilar é BARREIRAS. Existem barreiras mais eficientes, geralmente medidas de engenharia, que são denominadas barreiras duras; mas boa parte das barreiras são brandas, representadas por normas e procedimentos de trabalho; e nem por isso são menos eficientes, conforme demonstram os procedimentos de segurança em voos.
O quarto pilar é CULTURA DO COMPORTAMENTO SEGURO, no qual nós, no Brasil, deixamos muito a desejar quando nos comparamos com outros países. Não é exagero dizermos que, quanto a esse item, somos um país com um número anormalmente alto de semisselvagens.

O quinto pilar é DISCIPLINA. Aqui, um dos pontos mais importantes é não haver permissividade. A máxima enunciada na época da Guerra Fria continua sendo muito atual: “Nos Estados Unidos, tudo é permitido, menos o que é proibido; no Brasil, tudo é permitido, especialmente o que é proibido!” Uma lástima.

O sexto pilar é ENGENHARIA e ERGONOMIA. Técnicas mais modernas de engenharia afastam o corpo do trabalhador das fontes de risco. Ergonomia cria melhores condições de trabalho, possibilitando o uso adequado do corpo do trabalhador, com menor possibilidade de acidentes.

O sétimo pilar é FISCALIZAÇÃO. Há necessidade de acompanhar o estado dos meios de produção, pois eles se degradam pelo próprio uso, mesmo que correto. E essa fiscalização pode ser interna, de pessoal da própria empresa, mas também deve ser das autoridades do trabalho e do meio ambiente. Também é necessário fiscalizar a forma pela qual as pessoas estão trabalhando, compatível com os pilares A e D.

O oitavo pilar é GERENCIAMENTO DOS PERIGOS, para que não se tornem riscos. Numa comparação muito feliz, um tigre é um perigo, mas não se constitui em risco se estiver dentro da jaula. Todos os processos produtivos contêm perigos, em maior ou menor intensidade. O gerenciamento existe para garantir que os perigos não se tornem riscos. É por meio do gerenciamento dos perigos que viajamos de avião, com um grau de quase totalidade de certeza que chegaremos ao nosso destino.

O nono pilar é HIERARQUIA. Numa visão surrealista, a base da pirâmide é o seu ápice. A alta gerência e diretoria operacional de uma empresa “têm” que querer segurança dos processos. Quando isso acontece, como valor, todo o trabalho fica facilitado, podendo se chegar ao décimo pilar.

O décimo pilar é INTERDEPENDÊNCIA. Não adianta apenas a alta gerência da empresa querer a prevenção. Os gerentes e a média gerência (facilitadores e supervisores) também necessitam estar engajados, assim como o pessoal de nível operacional.

Feita a explanação sobre os dez pilares, cabe a pergunta: Têm evoluído as empresas brasileiras em prevenção de acidentes? Sem dúvida, mas destaco, neste artigo, a grande frustração em relação à letra G (Gerenciamento dos Perigos).

Em termos práticos, o leitor tem que entender que não há mágica para se fazer isso. O melhor exemplo é obtido na aviação civil, onde, por condição do negócio, de estar a aeronave com passageiros fora da superfície da terra, tem-se que assimilar que, se alguma falha no gerenciamento ocorrer, o acidente e a tragédia são quase certos.

Nas empresas brasileiras, com raríssimas exceções, finge-se que os perigos são gerenciados. Essa responsabilidade costuma ser passada aos sofridos e batalhadores engenheiros de segurança e técnicos de segurança, não se constituindo em assunto da pauta periódica da diretoria de operações, que costuma estar preocupada com temas “mais relevantes”. Até que acontece a tragédia, quando passa a existir a cultura reativa (correr atrás do prejuízo).

O gerenciamento dos perigos deve ser uma prática de rotina. Sugerimos: um seminário a cada 3 meses, fora da empresa e interrupções proibidas, com duração de um a dois dias, conforme o porte da empresa. Presenças obrigatórias: diretor de operações, nível acima dele, nível gerencial principal (produção, manutenção, utilidades), engenheiro de segurança, engenheiro ambiental, recursos humanos, jurídico, médico do trabalho e eventual consultoria. Um título interessante para esse evento seria: WORKSHOP TIGRES NAS JAULAS.

A dinâmica desse seminário seria: revisão criteriosa de todos os perigos conhecidos naquele processo produtivo e eventualmente alguns perigos novos, com visão dialética em cada tópico; cabe, nesse modelo, ao engenheiro de segurança, ao engenheiro de meio ambiente e ao médico do trabalho tentar demonstrar que os perigos estão fora de controle. Depois de discutido o real grau de controle sobre cada perigo, elabora-se plano de ação, definindo o responsável para cada medida e prazos, com definição de recursos para controle do perigo. Ao final do workshop, gerente operacional e demais gerentes devem ter a certeza de que as barreiras colocadas são compatíveis com a melhor prevenção existente, ao ponto de poderem concordar que um membro de sua família pode trabalhar naquelas condições.

Impossível? Fora da realidade? De forma alguma. Mas, quando falo sobre esse projeto para diretores (diretores!!!) executivos de empresas, eles “enrolam”, alegam falta de tempo e não cumprem, sinalizando assim a falta de comprometimento.

E assim, pela falta da letra G, tragédias continuam acontecendo. E nessas horas os diretores acham o tempo para tentar correr atrás do prejuízo!

*Médico do Trabalho, doutor em Administração, coordenador do curso de pós-graduação em Medicina do Trabalho, consultor de empresas e colunista da Revista Proteção

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